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Conselho consultivo em empresa familiar

Instâncias, fluxo decisório, papéis e calendário anual — governança antes do conselho de administração.

Em empresas familiares, o conselho consultivo raramente entra pela porta do organograma: nasce da necessidade prática de separar as conversas de sócios, de família e de operação.

Em empresas familiares, o conselho consultivo raramente entra pela porta do organograma. Costuma nascer de uma necessidade prática: separar as conversas de sócios das conversas de família, e as conversas de família das decisões do dia a dia da operação.

Princípios que orientam o desenho

Separar propriedade, gestão e família — mesmo quando as pessoas se sobrepõem.

Deixar por escrito quem decide o quê e em qual instância.

Antecipar a sucessão como processo, não como evento.

Preservar a operação da instabilidade das relações pessoais.

Organograma típico

Este é um arranjo típico — não um modelo. Cada família empresária precisa desenhar suas instâncias a partir da sua história, do número de sócios e do estágio da operação.

Nível 1 — Conselho de família (instância familiar) e Assembleia de sócios (soberana), lado a lado.

Nível 2 — Conselho consultivo (orientação estratégica).

Nível 3 — Diretoria executiva (gestão da operação).

Ligações do arranjo: o Conselho de família e a Assembleia de sócios provocam o Conselho consultivo; o Conselho consultivo orienta a Diretoria executiva; a Assembleia de sócios também pode acionar a Diretoria executiva diretamente.

Instâncias e competências

Assembleia de sócios — Soberana. Quando reúne: anual, com extraordinárias por convocação.

— Aprovar contas, resultados e destinação de lucros

— Alterar contrato social e acordo de sócios

— Deliberar sobre entrada e saída de sócios

— Eleger e destituir membros do conselho consultivo

Conselho consultivo — Orientadora. Quando reúne: bimestral, com pauta previamente distribuída.

— Analisar planos estratégicos e orçamento anual

— Emitir recomendações à diretoria e aos sócios

— Acompanhar indicadores financeiros e operacionais

— Zelar pela sucessão executiva e pela renovação da liderança

Diretoria executiva — Executiva. Quando reúne: semanal, em reuniões de gestão.

— Conduzir a operação dentro das diretrizes aprovadas

— Executar o orçamento e prestar contas ao conselho

— Contratar e liderar equipes

— Reportar riscos relevantes ao conselho e aos sócios

Conselho de família — Familiar. Quando reúne: semestral, em encontro estruturado.

— Preservar o histórico e os valores da família empresária

— Discutir o protocolo de família e sua atualização

— Preparar as próximas gerações para papéis societários

— Interlocução formal com o conselho consultivo

Fluxo decisório

01. Provocação — Sócio, diretor ou conselheiro. Um tema entra na pauta com contexto, alternativas e uma pergunta objetiva — sem essa disciplina, a reunião vira relato.

02. Instrução — Diretoria e assessorias. Levantamento técnico, dados financeiros, riscos e prazos. É a etapa que separa opinião de decisão informada.

03. Recomendação — Conselho consultivo. O conselho analisa e emite recomendação fundamentada — que não substitui a deliberação dos sócios, mas a qualifica.

04. Deliberação — Assembleia de sócios. A decisão formal é tomada pelo quórum previsto, registrada em ata e comunicada às demais instâncias.

Matriz de responsabilidades

Uma matriz simples ajuda a evitar duas patologias comuns em empresas familiares: decisões executadas sem aprovação clara e aprovações que nunca chegam à execução.

Legenda: R — responsável pela execução · A — quem aprova · C — consultado · I — informado. Colunas: Sócios · Conselho consultivo · Diretoria · Família.

Definir estratégia de longo prazo — Sócios: A · Conselho: R · Diretoria: C · Família: I.

Aprovar orçamento anual — Sócios: A · Conselho: R · Diretoria: C · Família: —.

Executar o plano de gestão — Sócios: I · Conselho: C · Diretoria: R · Família: —.

Aprovar destinação de lucros — Sócios: A · Conselho: C · Diretoria: I · Família: I.

Deliberar entrada/saída de sócios — Sócios: A · Conselho: C · Diretoria: I · Família: C.

Preparar próximas gerações para papéis societários — Sócios: C · Conselho: I · Diretoria: — · Família: R.

Revisar o protocolo de família — Sócios: C · Conselho: I · Diretoria: — · Família: R.

Calendário anual

Datas indicativas. O calendário real é definido em regimento interno das instâncias e revisto a cada ciclo anual.

Fevereiro — 1ª reunião do conselho consultivo (Deliberação).

Março — Assembleia anual de sócios (Prestação de contas).

Abril — Reunião do conselho consultivo (Deliberação).

Junho — Encontro do conselho de família (Formação).

Junho — Reunião do conselho consultivo (Deliberação).

Agosto — Reunião do conselho consultivo (Deliberação).

Setembro — Revisão do plano estratégico (Revisão).

Outubro — Reunião do conselho consultivo (Deliberação).

Novembro — Aprovação do orçamento anual (Deliberação).

Dezembro — Encontro do conselho de família (Formação).

Fecho

Governança séria não é sobre criar reuniões. É sobre combinar, por escrito, como se decide.

Autoria
Thiago Pierre Linhares Mattos
Revisão e atualização pelo autor.
Última atualização
Escopo
Governança e continuidade · Conselho consultivo

Para ir além

Trilha: Governança e administração

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